As Bruxas da Serra da Fóia

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A vida que conspirou para nos serapar em meninas, encarregou-se do nosso reencontro, muito tempo passado, feridas saradas, agora já mães de família. Não tinha sido esquecida a promessa da minha amiga mais crescida, de escrever sobre os nossos tempos de colégio e de contar as minhas estórias. Entreguei-lhe os meus escritos e contei-lhe a outra parte da estória que ela não conhecia. Hoje, como quando eu tinha cinco anos, meninos e meninas continuam a passar pelos mesmo horrores, medos, maus tratos e provações pelas quais eu passei. Gostaria de, com o meu testemunho, lhes poder dizes que a vida trás sempre coisas más contra as quais é preciso lutar com coragem e determinação, sem nunca desistir, mesmo que de injustiças se trate. Se conseguirmos ser persistentes, ainda que leve muito tempo, acabaremos por vencer. Quando revejo o passado, não tenho qualquer dúvida que vivi sustentada pela mensagem que me foi passada pelos contos de fadas. Nos contos de fadas o tempo não nos é apresentado em anos mas em experiência adquirida nas provas vividas. Acredito que, quando escrevi a minha primeira sebenta, estava já a começar o rascunho deste livro que a minha amiga Maria Emília Pires publica agora, de forma tão fiel, sensível, bonita, dura e comovente. Se esta história puder ajudar alguém, terá valido a pena o meu testemunho e a coragem da Maria Emília Pires de o levar ao público.
A minha mãe prendia-me muitas vezes na torre. Muitas, muitas vezes. Eu nunca sabia quando é que ela me ia levar para a torre nem conseguia entender que maldade é que tinha feito para merecer aquele castigo. Ela só me dizia:
- Agora ficas aqui de castigo.
O que a minha mãe não sabia e acho que nunca soube porque eu não lhe contei, nem tive oportunidade para lhe contar, é que a torre era o meu cantinho preferido. O lugar onde me sentia segura e magicava as histórias encantadas que o meu tio me costumava contar. Dali eu via o céu e o mar e não tinha que ouvir os barulhos, gemidos e gritos da minha mãe, que me metiam medo.